Quem dera se eu matasse e nesses verso nós vivesse
Quem dera se eu, ficando rico, favela vencesse
Se um de nós tá preso, ninguém tá liberto
Um de nós com fome, ninguém tá alimentado
Se tu vê injustiça com um de nós e tá calado, pô
Tu não fecha com nós, neguin, tu fecha do outro lado— Lord, no Favela Vive 5
Esses versos não são metáfora pra mim, mas uma régua.
Uma régua simples, quase infantil, que mede uma coisa só: de que lado você fica quando a injustiça cai em cima de alguém que não é você. Não tem meio-termo na régua. Não tem "depende". Não tem "não gosto de política". O silêncio também marca posição, os versos dizem isso melhor do que eu, então eu não vou repetir.
Escrevo a cinco dias de um segundo turno em que o filho de um homem condenado por tentativa de golpe chegou na frente. E escrevo de um jeito que talvez não seja o mais inteligente, nem o mais estratégico, mas o único jeito que eu sei: começando pela minha própria vida.
I. O prédio que chegou antes de mim
Eu venho de uma cidade com menos de trinta mil habitantes. Com exceções, o futuro tem poucas portas e quase todas dão pra fora dela.
Em 29 de dezembro de 2008, no segundo mandato do Lula, foi sancionada a Lei 11.892. Ela criou os Institutos Federais. Em setembro de 2010, uma portaria do MEC autorizou o funcionamento do campus de Bacabal do IFMA. Eu tinha 9 anos e não sabia que, longe dali, alguém estava decidindo que o interior do Maranhão também merecia escola técnica pública, gratuita e de qualidade.
Esse é o detalhe que eu acho mais bonito em política pública bem feita: ela chega antes de você saber que precisa dela, e o prédio já estava lá quando eu precisei.
Entrei em 2016, através das cotas de escola pública e negros e pardos, sendo o primeiro da minha família a estudar num Instituto Federal. Fiz o técnico em Tecnologia da Informação até 2018. E ali, naqueles três anos, aconteceu uma coisa que eu demorei pra entender: eu tive acesso. Acesso a laboratório, pesquisa, professor com mestrado e doutorado dando aula pra filho de quem nunca entrou numa universidade.
Foi ali que eu tive contato de verdade com a tecnologia. Tudo o que eu sou profissionalmente hoje começou em fevereiro, há dez anos, numa turma de Lógica na sala do IFMA em Bacabal.
E não foi mérito: alguém construiu o caminho, se o mérito, se existe, veio depois disso.
II. A federal, e o vocabulário pra nomear as coisas
Em 2019 eu entrei em Ciências Econômicas na Universidade Federal do Piauí. Atravessei a fronteira, vim pra Teresina, e fiquei.
Se o Instituto Federal me deu as ferramentas, a universidade me deu as palavras. Foi lá que eu aprendi a nomear o que eu suspeitava. Aprendi que o fato de a minha cidade ter poucas portas não era destino, era escolha. Escolha de orçamento, de prioridade, de quem senta na mesa quando o dinheiro é dividido.
A universidade pública faz isso com a gente: devolve o mundo explicado, ainda que ele fique mais difícil de aceitar.
Tem uma ironia nessa história que eu não consigo esquecer. Eu entrei na federal no mesmo ano em que o ministro da Educação do Bolsonaro anunciou corte nas universidades acusando elas de promover balbúrdia. Primeiro em três. Depois em todas. Era 2019.
Depois veio a pandemia, que atravessou o meu curso no meio. Aulas pela tela, colegas sumindo, gente largando pra trabalhar. E, enquanto isso, do Planalto, uma sequência de escárnio que eu vou contar na seção IV.
Me formei em 2023. Economista. Primeiro da família no IF, primeiro da família economista. Isso não é história de superação, mas de investimento público que deu certo. A diferença importa muito: superação é sobre o indivíduo, investimento é sobre o país.
III. O outro lado da régua
Volto aos versos, e ao "outro lado" de que eles falam.
Ser contra o que aconteceu comigo, contra o IF no interior e a federal pra filho de pobre, é uma posição política legítima. Tem gente que acha que dinheiro público não deveria ir pra isso. Eu discordo, mas consigo conversar.
O que eu não consigo é fingir que o bolsonarismo é só isso. Uma divergência de orçamento. Uma visão diferente de Estado. Não é.
O bolsonarismo é um projeto que precisa de inimigo pra existir. E o inimigo não é o banco, o latifúndio, o bilionário que sonega. O inimigo é sempre quem está embaixo. A travesti aprovada por cotas (e que ousa usar o banheiro feminino). A mulher que levou o caso à delegacia. O indígena que não sai da terra nem dá licença ao garimpo. O jovem negro que "devia estar fazendo coisa errada". O professor "doutrinador". O estudante da "balbúrdia".
Ódio é barato de produzir e caro de pagar, mas quem paga nunca é quem produz.
Sem banalizar, esse é o fascismo brasileiro. Há quem diga que eu exagero, que fascismo foi outra coisa, outro tempo, outro continente. Eu fico com Umberto Eco, que num ensaio de 1995 listou os traços do que chamou de fascismo eterno: o medo da diferença, o apelo a uma classe média frustrada, o machismo, a obsessão por um inimigo que é ao mesmo tempo poderoso e fraco.
Quando um movimento elege inimigos internos, despreza a ciência, ridiculariza a morte, ataca a imprensa, as universidades e o sistema eleitoral, e termina com uma tentativa de golpe, eu não preciso esperar o nome oficial pra reconhecer o cheiro.
IV. A espetacularização do ridículo
Uma das coisas mais difíceis de explicar pra quem não viveu esses anos é como o ridículo virou método.
Em 2018, meu último ano no IF, a eleição teve mamadeira de piroca. Em 2019, meu primeiro na federal, o presidente da República postou um vídeo de golden shower no Carnaval. Em 2020, com o país enterrando gente, ele disse "e daí?" e avisou que não era coveiro. Em 2021, numa live, imitou uma pessoa com falta de ar, enquanto brasileiros morriam sem oxigênio em Manaus. Foram mais de setecentos mil mortos de covid no Brasil.
E em 2025, já condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe, ele usou um ferro de solda na tornozeleira eletrônica, alegando curiosidade. Hoje, com o devido impulso dos algoritmos, seus apoiadores riem, debocham e viralizam pela mesma estratégia.
A gente ri. Eu rio, às vezes é difícil não fazê-lo. Mas não seria esse o intuito?
O ridículo desarma. Ele faz a gente tratar como piada o que é projeto. Enquanto todo mundo comentava o absurdo da semana, o desgraçado do Ricardo Sales, numa reunião gravada, falava em aproveitar que a imprensa estava olhando pra pandemia pra passar a boiada. Enquanto a gente compartilha o meme, a mentira já deu três voltas pelo Instagram.
A mentira e o ridículo trabalham juntos. A mentira cria o medo; o ridículo impede que a gente leve o medo a sério. É um espetáculo. E espetáculo tem plateia (muito cheia, por sinal), tem aplauso e tem conta.
V. Quem perde e quem ganha
Toda morte tem um balanço. Eu trabalho com dados, então vou fazer o que sei fazer: montar esse balanço com números que qualquer um encontra no Google.
Começo pelo lado de quem perde.
Pessoas trans. Segundo o dossiê da ANTRA divulgado em janeiro, 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025. O número caiu, mas as tentativas de homicídio subiram 32%. O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo pelo 18º ano seguido. Em média, três em cada quatro vítimas são negras, e dois terços dos assassinatos aconteceram no interior (em cidades como a minha).
Mulheres. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou 1.571 feminicídios em 2025, o quarto recorde seguido. São mais de quatro mulheres por dia mortas por serem mulheres, num ano em que as mortes violentas em geral caíram. Indígenas. O Cimi registrou 211 indígenas assassinados em 2024, o primeiro ano do Marco Temporal. Em dez anos, esses assassinatos triplicaram.
Negros. Quase oito em cada dez vítimas de mortes violentas em 2025 eram negras. No mesmo ano, a polícia matou mais do que em qualquer outro da série histórica.
O padrão é simples: a violência geral cai, e a violência contra quem está na margem fica onde está ou cresce. A média melhora e a cauda piora. Quando isso acontece, a média mente.
E antes que alguém diga: sim, parte desses números é do governo Lula, e é justamente esse o ponto. Quem aperta o gatilho nessas mortes é a polícia dos governadores, o marido com arma em casa, o fazendeiro protegido por uma lei que o Congresso aprovou por cima do veto do presidente. A violência contra quem está na margem não começou com Bolsonaro e não vai acabar com Lula. A diferença é que um governo tenta, mal e devagar, frear essa máquina. O outro joga gasolina nela e chama isso de liberdade.
Agora, o outro lado do balanço. Quem ganha?
Ganha, primeiro, quem vende o inimigo. Algoritmo não paga por verdade, paga por engajamento, e nada engaja como raiva. Existe hoje uma economia inteira do ódio, com influenciador monetizado, curso de masculinidade, podcast de red pill e canal que transforma a travesti da semana em visualização. Cada polêmica é receita.
Ganha quem vende a proteção contra o inimigo que inventou. Os registros de armas de caçadores, atiradores e colecionadores explodiram nos anos Bolsonaro. A indústria de armas não precisa que a violência aumente; precisa que o medo aumente. E o medo é o produto mais barato de fabricar.
Ganha quem quer a terra! Cada indígena retratado como invasor da própria terra é um hectare a menos de discussão. E ganha quem se elege administrando esse medo. A bancada da bala, a bancada do agro, o candidato que promete defender a família de um perigo que ele mesmo descreve todo dia.
Tudo isso funciona por uma gramática: nós e eles.
“Nós” somos os cidadãos de bem; “eles” são quem a semana pedir. No mapa do primeiro turno, “eles” eram os nordestinos, chamados de burros e vendidos. Dentro de casa, “eles” são as mulheres, culpadas por um homem frágil que chama de perda o simples fim de uma vantagem. E, na lista de aprovados, “eles” somos nós, os cotistas, para uma classe média que se acha elite e é tratada como plebe. Essa classe média não defende privilégio por ganância, mas por medo de cair. E o fascismo sempre soube transformar o medo de cair em raiva contra quem está subindo.
É aqui que o balanço fica incômodo, porque falta uma linha nele: a do trabalhador que compra esse discurso:
O bolsonarismo paga o mesmo salário. Ao homem que se sente humilhado no trabalho, oferece a superioridade sobre a mulher. Ao pai de família endividado, oferece a superioridade sobre a travesti. À classe média espremida, oferece a superioridade sobre o cotista e o nordestino. Ninguém ganha aumento. Todo mundo ganha alguém para desprezar.
E, enquanto recebe esse salário, o trabalhador perde o salário de verdade. O mesmo governo que o ensinou a ter medo da “ideologia de gênero” aprovou, em 2019, a reforma da Previdência que o fez trabalhar mais anos para se aposentar com menos. O mesmo discurso que o colocou contra o cotista corta a verba do IF onde o filho dele poderia estudar. Ele está no balanço, sim, só que na coluna errada. Perde mais devagar que a travesti, mas perde.
A diferença para os versos da epígrafe está na direção. O “nós” de quem está na margem se define por quem está sendo esmagado; o “nós” bolsonarista, por quem ele quer esmagar. O primeiro é consciência de classe, ainda que não use esse nome. O segundo é o contrário dela: um trabalhador convencido de que o inimigo está abaixo dele, e não acima.
VI. Quem precisa dele
Seria confortável tratar o bolsonarismo como doença moral. Gente má, gente burra, gente enganada. Mas o fascismo não brota do nada. Ele é contratado.
Em 1935, Dimitrov definiu o fascismo como a ditadura terrorista aberta dos elementos mais reacionários do capital financeiro. Eu acho que ele acerta no essencial: o capital não é bolsonarista, é oportunista. Ele convive bem com a democracia só enquanto ela não atrapalha.
O que o capital quer do Brasil é simples de dizer: terra sem indígena, minério sem licença ambiental, trabalhador sem direito, que de preferência se chame de empreendedor. Quer orçamento público sem povo dentro. Nada disso se aprova com facilidade num país que vota, protesta e se organiza.
Por baixo de tudo isso, precisa do brasileiro subjugado. Não derrotado, subjugado. O que trabalha doze horas e acha que é patrão de si mesmo. O que perdeu direito trabalhista e agradece por ter emprego. O que vota contra o próprio filho porque alguém o convenceu de que o inimigo é a travesti, o estudante.
VII. A democracia que en(es)colhe
No dia 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos. Lula ficou com 45,16%. A abstenção foi de 21%, a maior desde 1998. O Congresso que saiu das urnas é ainda mais à direita do que o anterior.
O pai está condenado. O filho está na frente.
Eu fico pensando no 8 de janeiro de 2023. Naquele dia, eu pensei, embora não nessas palavras, que o fascismo brasileiro tinha mostrado a cara e que, depois disso, ninguém mais ia conseguir defendê-lo em voz alta. Errei, porque ele não precisa de tanque, só de tempo, de algoritmo e de cansaço.
É assim que a democracia perde espaço, em pedaços, por etapas. Perde quando o ridículo vira entretenimento. Perde quando a morte de uma travesti não vira notícia. Perde quando um em cada cinco eleitores desiste de votar. Quando o brasileiro médio começa a achar normal.
E eu sei que tem muita crítica pra fazer ao governo atual. Eu mesmo já fiz várias, nesse mesmo blog. Mas existe uma diferença entre um governo que te decepciona e um projeto que te quer subjugado. Quem não enxerga essa diferença nunca esteve do lado que morre, ou foi alienado desse posto.
Fecho
Eu sou o resultado de um IFMA construído em Bacabal e de uma universidade federal. Por isso não consigo ser neutro, e ser neutro, nesse caso, é só uma forma educada de escolher o lado de quem bate.
Enfim, termino com nomes, porque número a gente esquece.
Dandara dos Santos, espancada até a morte em Fortaleza, em 2017, enquanto o vídeo circulava como entretenimento. Marielle Franco, executada no Rio, em 2018. Dom Phillips e Bruno Pereira, assassinados no Vale do Javari, em 2022, por defender quem quase ninguém defendia. Moïse Kabagambe, espancado num quiosque da Barra da Tijuca, também em 2022, por cobrar diárias atrasadas.
Nenhum deles morreu por causa de uma eleição, mas todos morreram num país que vinha aprendendo, ano após ano, que matar certas pessoas custa pouco.
Eu não sei quem ganha. Sei o que escrevi e de que lado estou. E sei que, se a gente perder, vou precisar reler este texto pra não me acostumar.
Domingo é dia 25, e quando eu apertar 13, vou pensar naquele prédio em Bacabal, em quem eu sou e no que quero para o meu filho, Augusto.
A pergunta da epígrafe continua de pé. De que lado você fica?
Teresina, 20 de outubro de 2026.
Esses são meus esboços de outubro. A memória também é uma forma de voto.
