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1º de Maio: esboços de quem não é ninguém
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1º de Maio: esboços de quem não é ninguém

Texto remendado com algumas ideias que, apesar de não originais, valem a pena serem escritas.

Alexandre Barros01 maio 202610 min de leituraAtualizado em 01 mai 2026

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. \n Primeiros versos de Tabacaria, do Fernando Pessoa.

Não tenho partido. Não tenho mandato. Não tenho coluna em jornal, não tenho cargo em coletivos organizados, não tenho seguidores suficientes pra fazer qualquer algoritmo se importar. Sou um trabalhador de tecnologia: escrevo código, configuro servidores, ensino gente a usar IA. Pago aluguel. Abro o terminal de manhã e fecho de noite. Dias bons, fecho antes da meia noite.

Mas hoje é 1º de Maio. E se existe um dia em que quem não é ninguém tem o direito, mas o dever, de falar, é hoje. Não em nome de um partido, não em nome de uma corrente, talvez de uma sigla. Em nome próprio. Em nome do que sei porque vivo, e do que vivo porque trabalho.

Esses são esboços. Não tem a pretensão de ser programa. Nem são tese. São o que eu penso, com o que eu tenho, de onde eu estou. Se servir pra mais alguém, bom. Se não servir, pelo menos está registrado.


I. Sobre o trabalho que fazemos e o trabalho que nos fazem

Eu gosto de programar. Gosto do momento em que o código roda, o sistema sobe, o problema se resolve. Tem uma satisfação material nisso, porque algo funcionou porque eu fiz funcionar.

Mas quase nunca trabalho pra mim. Trabalho pra que o sistema de outra pessoa funcione, pra que o produto de outra pessoa venda, geralmente. O código é meu por oito horas; depois é de quem pagou. O conhecimento que acumulei em anos de estudo e erro é convertido em valor, mas o valor não fica comigo. Fica com quem assina o contrato.

Isso não é reclamação. É descrição. É o que Marx chamava de relação entre trabalho e capital, traduzida pra linguagem de quem abre VS Code todo dia. O trabalhador de tecnologia acha que escapou da fábrica porque usa laptop em vez de torno. Não escapou. Percebam que a relação é a mesma: você produz, outro acumula.

Esses dias estava vendo um vídeo do Spotinik questionando exatamente isso: o quão ultrapassada está essa visão dada as mudanças e dinamicidades do mundo 200 anos depois de Marx. E ele tem razão em uma coisa: a complexidade mudou.

Porque o que Marx via era mais direto. Proletário e burguês. Fábrica e patrão. A exploração era visível, crua. Agora? Agora eu sou parcialmente explorado e parcialmente explorador. Tenho um salário confortável que me coloca acima de quem não tem acesso a educação técnica, mas esse conforto existe porque sou útil. O meio-termo é real, mas é também uma concessão calculada. É a manutenção do sistema.

As nuances de classe se elevaram. As hierarquias se multiplicaram. Não é mais você ou o patrão: é você, o patrão, o cliente, o fornecedor, o algoritmo que decide. A complexidade comercial criou camadas de mediação que tornam a exploração menos óbvia, mais distribuída. E o mais insidioso é que parte da minha "liberdade" (escolher projetos, trabalhar remoto, ter autonomia) é exatamente o que me mantém preso. É o que faz eu aceitar a relação.

O conforto relativo não é um acidente. É manutenção. É o sistema oferecendo o suficiente pra que eu não questione o essencial.

O 1º de Maio existe pra lembrar disso. Não pra celebrar o trabalho — pra questionar as condições em que ele acontece.


II. Programas e as contradições locais

“Sim, o Piauí tem que assassinar, a pauladas, o seu ufanismo. E quando assumir a sua plena miserabilidade - estará salvo.” (Nelson Rodrigues em O Globo, 22/04/1969)

Escrevo isso de Teresina. Em um dos estados mais pobres, num dos mercados de tecnologia mais invisíveis. Aqui o PIB per capita é metade da média nacional. A fibra óptica chega, mas o saneamento básico não. Tem coworking e tem bairro sem água. Tem startup e tem fila no CRAS.

E é daqui, desse lugar, que eu preciso falar. De lugares onde a contradição do capitalismo é visível mas mediada por infraestrutura, por universidade pública com orçamento, por metrô. Aqui a contradição é nua. Sequer precisa de teoria pra enxergar, basta sair a rua.

Eu trabalho remoto. Meus clientes estão em outro estado. Meu salário entra em real, meu custo de vida é piauiense. Isso me coloca numa posição estranha: sou privilegiado em relação ao entorno e precarizado em relação ao centro. O capitalismo de plataforma me inclui na economia global e me exclui da economia local porque o dinheiro circula pra fora, os problemas ficam aqui.

E a tecnologia, nesse contexto, faz uma coisa curiosa: ela maqueia. Um dashboard bonito num painel de governo maqueia o fato de que a escola não tem professor. Um app de saúde pública maqueia a UPA lotada. Uma plataforma de empreendedorismo digital maqueia o desemprego estrutural. A cidade ganha um polo de inovação enquanto o rio Poti seca e o transporte público apodrece.

Não estou dizendo que tecnologia é inútil aqui, definitivamente não é. Estou dizendo que ela é usada como maquiagem num rosto que precisa de cirurgia. E que essa maquiagem serve a alguém, ou melhor, para algo, à narrativa de que o Piauí está crescendo**. Está? Pra quem?**


III. Sobre a IA que maqueia e a que poderia revelar

A IA ampliou o truque. Agora qualquer prefeitura pode dizer que usa inteligência artificial. O chatbot no site da secretaria. O sistema de câmeras. A análise preditiva de evasão escolar. Os termos estão no slide, os logos estão no banner.

O que não está: que a evasão escolar tem causas que nenhum modelo preditivo resolve, fome, trabalho infantil, falta de transporte. A criança não evade porque o algoritmo falhou em detectá-la. Evade porque precisava ajudar a mãe a vender picolé na Ponte.

Mas eu seria desonesto se parasse aqui. Porque eu ensino IA. Eu gosto de IA. Eu rodo modelos quando consigo. Tudo isso porque acredito que essa tecnologia tem potencial real. O problema não é a ferramenta, mas o enquadramento. Usar IA pra otimizar a gestão da pobreza é uma coisa. Usar IA pra entender a pobreza (mapear concentração de terra por satélite, cruzar dados públicos de orçamento, tornar visível o que o poder quer invisível) é outra completamente diferente.

A mesma tecnologia que maqueia pode revelar. Depende de quem opera, pra quem opera e com que pergunta.

E é aqui que o software livre importa de forma concreta, não abstrata. Quando o código é aberto, a pergunta pode ser refeita. Quando os dados são públicos, a resposta pode ser verificada. Quando a infraestrutura é local, o controle é de quem está aqui, não de quem vende solução de São Paulo pra rodar em servidor da Amazon na Virgínia.


IV. Por que o político médio não me representa

Vou dizer uma coisa sem elegância: a política da esquerda liberal me cansa.

Mas vou dizer outra coisa que não se diz nos textos militantes: eu entendo por que ela existe.

Aqui, em Teresina, em 2026, a alternativa concreta à gestão do inaceitável muitas vezes é o inaceitável sem gestão nenhuma. A esquerda que administra o capitalismo é insuficiente, mas a que só oferece pureza teórica e nenhuma resposta pra quem tá na fila do osso é pior. É confortável criticar o reformismo quando você não depende da reforma.

O que me incomoda nem é que existam pessoas de esquerda administrando o capitalismo. É que pararam de dizer que é isso que estão fazendo. A tática virou princípio e o meio um fim. E junto veio o pior: a substituição de classe por consumo. Diversidade na diretoria da empresa que explora. Inclusão na plataforma que vigia. Representatividade nas instituições que financiam. A opressão é muito real, racismo, machismo, tudo isso é real e urgente. Mas quando essas pautas são descoladas da estrutura econômica que as alimenta, viram marca. Mera identidade de prateleira.

Eu não sou sectário. Sou um trabalhador que lê Marx no mesmo celular onde abro o Instagram. A contradição é minha, é diária, é constitutiva. Mas reconhecer a contradição é diferente de abraçá-la. Viver dentro do sistema é inevitável; esquecer que o sistema é o problema é opcional.


V. Sobre as pequenas coisas que faço

Eu não vou fazer a revolução. Sei disso.

Mas faço coisas. Pequenas. Concretas. Sem épica.

Rodo modelo de IA na minha máquina. Cada vez que faço isso em vez de usar uma API corporativa, é uma decisão material: meus dados ficam aqui, meu dinheiro não vai pra lá, minha dependência diminui um grau.

Uso software livre. Mas onde posso, escolho. E cada escolha dessas é um tijolo minúsculo num muro que muita gente constrói junto, sem se conhecer, sem combinar.

Ensino. Uma pessoa de cada vez. Não a usar ferramenta, a entender ferramenta. De onde vêm os dados. Quem lucra. O que muda se você roda local em vez de nuvem. Por que a licença importa. É conversa. É mostrar o que eu vejo e perguntar se o outro vê também.

Escrevo. Num blog que ninguém lê, sem editor, sem prazo, sem métrica. Porque registrar é resistir ao esquecimento. Porque alguém, algum dia, pode tropeçar nesse texto e perceber que pensa parecido, e isso já basta.

Nada disso muda o mundo. Mas muda o pedaço que eu toco. E a história, quando a gente olha de perto, é feita de pedaços.


VI. Um paralelo aleatório: One Piece

Existe uma história que milhões de pessoas acompanham há mais de vinte anos em que um garoto de chapéu de palha declara guerra aos donos do mundo. Mais por instinto do que por ideologia. Eu pessoalmente adoro essa história.

One Piece é, no fundo, uma história sobre classe.

Os Tenryuubito (ou Dragões Celestiais) são a metáfora mais transparente que a ficção popular já produziu sobre poder herdado: uma casta que governa o mundo porque seus ancestrais o conquistaram oitocentos anos atrás. Não trabalham. Não produzem. Não criam nada. Apenas possuem. Andam com escravos, vivem acima das nuvens, e o Governo Mundial inteiro existe pra protegê-los. Se alguém levanta a mão contra um Dragão Celestial, um Almirante da Marinha é enviado. Não importa o motivo. Não importa a justiça. O poder se autodefende.

Olha ao redor e me diz que isso é ficção.

Os Dragões Celestiais do mundo real não usam bolha de vidro na cabeça. Herdam fortunas, terras, cargos, isenção. E o aparato inteiro existe pra garantir que ninguém encoste neles. Se encosta, a resposta é desproporcional: processo, prisão, difamação, ruína.

E aí vem Luffy. Olha pro Dragão Celestial em Sabaody e dá um soco na cara dele. Não porque calculou as consequências. Porque não era aceitável que alguém tratasse outra pessoa daquele jeito.

Oda sabe o que está fazendo. O Século Vazio é a história apagada pelos vencedores. A vontade de D. é a herança dos que resistiram. O One Piece, seja lá o que for, é o que o poder não quer que seja encontrado.

E a gente? Não temos punho de borracha. Não temos Gear 5. Não temos tripulação de piratas dispostos a enfrentar o mundo junto. Mas temos o mesmo instinto. A mesma recusa. E se não podemos socar um Dragão Celestial, podemos pelo menos parar de fingir que eles não existem e parar de apoiar sistemas que os protegem.


Fecho

Hoje é 1º de Maio. Em 1886, trabalhadores de Chicago morreram pedindo jornada de oito horas. Em 2026, trabalhadores de tecnologia fazem doze horas orgulhosos, chamam isso de hustle culture e postam no LinkedIn como se fosse mérito.

Algo deu muito errado.

Mas o dia ainda é nosso. Dos que trabalham, dos que produzem, dos que mantêm o mundo funcionando enquanto outros acumulam. Dos que não são ninguém, mas sem os quais ninguém é nada.

Escrevo de Teresina, 1º de Maio de 2026, com vários graus lá fora e alguma IDE aberta aqui. O rio tá cheio, o código tá rodando, o mundo tá torto. Mas o dia é nosso.

Feliz dia de luta.


Esses são meus esboços. Se você tem os seus, escreva. Num blog, num caderno, num guardanapo. O importante não é o alcance. É o registro. É dizer, com as próprias palavras, de onde viemos e pra onde queremos ir. Ninguém vai fazer isso por nós.

Escrito por

Alexandre Barros

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