Crônicas breves sobre coisas que a gente finge que não existem.
I. os barulhos de fundo
Todo lugar habitado tem um barulho de fundo. O zumbido da geladeira, o ventilador batendo torto, o cachorro de madrugada que late por motivos que só ele conhece. A gente não ouve mas o corpo registra; o corpo sabe que algo ou alguém está ali.
Quando uma pessoa morre, o que desaparece primeiro não é a imagem. A imagem dura, em foto, em vídeo, na memória. O que desaparece é o barulho, o jeito de tossir, o arrastar do chinelo no corredor, o suspiro antes de sentar. Esses sons pequenos, sem importância nenhuma, e que diziam “eu estou aqui”.
E um dia param. E o silêncio que sobra não é silêncio, mas um buraco. Um formato exato do que falta, recortado no ar. Às vezes eu penso que a gente é isso, um barulho de fundo na vida dos outros. Quando para, alguém demora a perceber. E quando percebe, o que nota não é o silêncio, é a ausência do som que nem sabia que ouvia.
As pessoas ao redor seguem. Compram pão, pagam conta, respondem mensagem. O buraco fica ali, no formato do suspiro, esperando alguém perceber que o som que fazia a casa ser casa era justamente o que ninguém ouvia.
II. o rio e a ponte
Toda cidade tem um lugar que pertence à insônia. Em Teresina eu imagino sendo o Parnaíba, que corre devagar como quem não tem compromisso.
Sobre ele, a ponte não é de ninguém. Os carros passam por cima com a pressa genérica de quem vai pra algum lugar. Embaixo, o rio segue. Ele não sabe que é rio. Não sabe que corta uma cidade. Não sabe que reflete a lua quando ela aparece. Ele faz o que faz porque faz.
Tem uma honestidade no rio que a gente podia aprender. Ele não escolheu o caminho, a geografia escolheu por ele. Não decidiu ser bonito ou feio, limpo ou sujo. Não se compara ao Velho Chico nem sente vergonha de ser barrento. Ele corre, quando seca, seca; quando enche, enche. O rio não negocia com as circunstâncias.
A gente, sim. A gente gasta a vida inteira negociando com circunstâncias que não se movem. Querendo que o corredor seja mais largo. Que o caminho fosse outro. Que a geografia tivesse sido mais generosa. E enquanto negocia, a água passa.
III. eu não sei
A gente fala das escolhas como se fossem momentos definidos: um dia você senta e decide. Mentira. A maioria das escolhas é feita por omissão. Eu não escolhi ficar em Teresina, eu fui ficando. Um contrato de aluguel, um trabalho melhor, uma namorada, um filho, um "por enquanto" que faz aniversários.
Fico parado e penso em quantas versões de mim existiram nessa cidade.
Não sei se isso é derrota ou aceitação. Provavelmente os dois, mas a cidade não sabe a diferença.
IV. o vazio com sentido
A maioria das coisas boas funciona assim: não se conquista, acontece. Como a conversa que vira amizade.
A frase que chega na hora
O sono depois de noites ruins
A chuva depois da seca
A gente passa a vida tentando produzir felicidade — e a felicidade, quando vem, quase nunca é a que foi fabricada
É a que caiu do céu
Literalmente(?)
Talvez o trabalho não seja buscar, seja estar no lugar quando chover.
V. a cadeira
A gente evita falar sobre a morte, a nossa e a dos outros. Normalmente a morte é assunto pra velório e olhe lá. Fora do velório, é silêncio e indiferença. Sobre aquele outro, cuja falta é problema de outros.
Mas o tabu da morte protege quem? Não protege o morto — ele não sabe. Não protege o vivo — ele sofre calado. Protege a ilusão de que, se a gente não falar, ela não vem. E ela vem.
Apesar disso.
Toda família tem uma cadeira vazia.
VI. deus, provavelmente, não
Existe um tipo de ateísmo que não é raiva ou rebeldia, não é fase, mas indiferença.
Não é o ateísmo de quem leu muito e quer debater. Não é o de quem foi machucado pela igreja e se afastou. Nem o de quem tem argumento na ponta da língua pra cada versículo. É o ateísmo de quem olha pro céu, não vê nada, e segue andando.
Sem drama e nenhum manifesto. Sem necessidade de convencer ninguém.
É uma posição estranha num lugar onde tudo passa por Deus. É a contraparte dessas coisas. E o câncer que não curou? O acidente que matou? Aí é mistério. É "Deus sabe o que faz". A teologia popular resolve a contradição com silêncio seletivo.
O ateu indiferente não tem esse recurso. Quando alguém morre, morre. Não foi pra um lugar melhor. Não está olhando de cima, aquela existência ficou confinada no tempo. E parou. O corpo parou e a consciência se foi junto. O que sobra é a memória nos outros. Enquanto durar…
Isso é insuportável? De certa forma. Mas tem uma liberdade estranha na falta de consolo. O peso, por mais que doa, é honesto. Está apontando pro vazio. E o vazio é o que é.
O ateu indiferente não quer converter ninguém. Se Deus consola, que console. Se a fé sustenta, que sustente. Não vejo como cinismo, sinceramente, pois cada um aguenta o absurdo como pode. Alguns com reza, alguns com terapia, alguns com álcool, outros com silêncio.
O ateu indiferente escolheu o silêncio. Na verdade, talvez o silêncio o tenha escolhido. Sempre soube que não tem o que dizer. Que a pergunta pode ficar aberta. Que não saber é uma posição legítima. Que viver sem sentido dado, não é viver sem sentido, mas viver com outras muletas.
Outras. E quando vier o fim, espera-se algo com o corpo parando, o barulho cessando, os outros seguindo. O balanço cósmico seria mera ocasionalidade, sem nada além do que foi vivido.
Que é, se a gente for honesto, bastante coisa.
VII. as não-escolhas
Imagine se conseguisse listar as coisas que definem sua vida e marcar quais você escolheu.
O lugar onde nasceu, a língua que fala, a classe em que cresceu…o corpo que habita… a época em que existe. As coisas que foram possíveis por causa de tudo isso, e as que não foram. Tal como o não-ser é mais amplo que o ser, a lista de não-escolhido é sempre maior. Obscenamente maior.
O meio, contudo, persiste em considerar que você é o que escolheu, e que vida é resultado das suas decisões. O sucesso é mérito; o fracasso é culpa. A verdade é que a escolha existe, mas mora dentro de um corredor. E a largura do corredor ninguém escolheu. Quem nasceu em corredor largo chama isso de liberdade. Quem nasceu em corredor estreito sabe que é outra coisa.
Isso é geometria, que se olha pro espaço que foi dado e ser honesto sobre o que cabe ali. Algumas pessoas fizeram coisas extraordinárias em corredores mínimos,acho isso admirável. Mas transformar a exceção em regra é crueldade.
Quis. Não coube. A escolha existe. Mas ela acontece dentro de um corredor cuja largura não foi você quem decidiu.
VIII. A última hora
A gente não evita falar da morte pra proteger o moribundo. A gente evita pra proteger a si mesmo.
E você? O que está esperando?
A pergunta não precisa de resposta grandiosa. Realizar sonhos cinematográficos normalmente é custoso demais.
É sobre coisas miúdas.
Falar o que sente.
Parar de adiar a conversa.
Prestar atenção ao som enquanto ele ainda existe.
O ventilador bate torto, enquanto o cachorro late e alguém arrasta o chinelo no corredor.
Ainda dá tempo de ouvir.
Capa: storyboard ilustrado por Akira Kurosawa na década de 80.
Esses textos não têm moral. Se algum deles te fez parar por um segundo então fez o que tinha que fazer.
