IX. a teoria do sofá
Em dado momento em amizades sinceras, alguém deita no seu sofá sem pedir. Não senta na ponta, educada, com a coluna reta de visita. Deita. Joga as pernas pra cima, pega a almofada, mexe no controle. É um marco antropológico e ninguém comemora.
Relacionamentos de adultos é difícil de fabricar porque o insumo principal, que é desperdiçando tempo junto, é caro. Criança vira amiga de criança porque passa seis horas por dia entediada no mesmo lugar. A gente adulta agenda. "Bora marcar" é a frase mais melancólica do português de hoje, porque todo mundo sabe que tem cinquenta por cento de chance de virar pó.
Por isso o sofá importa. Quem deita no seu sofá pulou a etapa do agendamento. Ela está existindo perto de você, que é uma coisa rara. Achamos que vai sentir falta das grandes festas, das viagens, dos passeios… mas vai sentir falta disso: alguém ocupando seu sofá, sem assunto urgente, vendo um negócio qualquer, comendo o que tinha na geladeira como se fosse a casa dele.
Porque é.
X. a ritalina de teste
Vejam bem, a promessa da ritalina nunca foi ficar mais inteligente, e sim parar de ser interrompido por si mesmo.
Eu experimentei certa vez, pedi meio comprimido a um colega, e o que aconteceu foi mais constrangedor do que produtivo. Organizei a mesa. Limpei a pasta de downloads. Pesquisei a história da própria ritalina com um interesse que não dediquei a nenhuma matéria da prova. O remédio fez exatamente o que prometia, me deu foco; o problema é que foco não escolhe objeto. Ele ilumina com a mesma intensidade o que importa e a sua coleção de canetas.
A descoberta, se bem que humilhante, foi útil. O que me faltava nunca tinha sido capacidade de concentração. Era vontade, e vontade não vem em comprimido. Eu idealizei o atalho químico para a disciplina porque é mais fácil engolir do que admitir o óbvio, que muitas vezes a pessoa não estuda simplesmente porque não quer estudar aquilo, e nenhuma molécula resolve um problema que é, no fundo, de desejo.
XI. o cotidiano
Há uma armadilha em achar que a vida verdadeira está em outro lugar, guardada para quando as coisas se ajeitarem. Você trata a terça-feira comum como sala de espera de uma vida que vai começar mais tarde, num futuro com mais tempo, mais dinheiro, menos pendências. Só que, vejam bem, a soma dessas terças comuns é literalmente a sua vida. Não há um segundo material guardado em outro depósito. É isto, exatamente isto, repetido até acabar.
Há algo quase indecente em perceber isso de repente, no meio de uma tarefa banal, lavando um copo ou esperando um arquivo abrir. A revelação não vem em mirante nenhum, com vista panorâmica e trilha sonora. Ela chega assim, sem aviso, numa fila de banco, e some logo depois, porque a fila anda e é a sua vez.
XII. a falha adulta
A distância entre saber e fazer é um território inteiro que a vida madura nunca termina de atravessar, e que a gente finge, em público, já ter atravessado faz tempo.
A juventude tem o luxo de achar que esses erros são provisórios, etapas de um aperfeiçoamento que culmina numa versão final, competente e resolvida da pessoa. Se bem que, chegada certa idade, a suspeita se instala, e é uma suspeita pacificadora à sua maneira: talvez não exista versão final. Há razões para acreditar que cumprir pequenas e triviais obrigações já é vitória.
A maioria das vezes, veja, não todas.
XIII. a competitividade
O cansativo da corrida da competitividade é que ela não tem linha de chegada. Vencida uma comparação, surge outra, com alguém um pouco mais à frente, porque sempre há alguém mais à frente, e o que parecia o topo se revela, do alto, apenas um degrau com vista para outros degraus. A pessoa competitiva nunca chega; ela apenas troca de adversário, indefinidamente, até cansar.
Eu não venci essa, ainda. Estou, no máximo, começando a achar graça.
XIV. os hábitos que morrem
Os hábitos não terminam com cerimônia; ninguém faz a última corrida sabendo que é a última, ou joga xadrez pela derradeira vez com a consciência da despedida. O hábito simplesmente rareia, vira quinzenal, depois mensal, depois aquela coisa que você ainda diz que faz quando perguntam, num presente do indicativo que já não corresponde a nada.
O que me intriga é carregar uma autoimagem feita desses hábitos extintos. Eu ainda me apresento, em algum canto da cabeça, como alguém que joga xadrez, quando a verdade material é que sou alguém que jogou e estacionou num rating. Acho que admitir o fim de um hábito é admitir uma pequena morte de quem a gente foi, e ninguém gosta de assinar esse atestado.
O tabuleiro está desmontado. Eu sei o que precisaria fazer, e sei também que provavelmente não vou.
XV. reuni-não
O capitalismo tardio inventou um inferno educado. Ninguém grita ou sofre visivelmente. Mas a vida vai escorrendo em pautas, follow-ups e "só pra ficar registrado". A gente troca horas, pedaços não-renováveis de existência, pelo senso de produtividade que nem é real, porque metade do trabalho é provar que se está trabalhando.
O cômico é que todo mundo sabe. A pessoa que está falando há onze minutos sabe. Ela também queria estar em outro lugar. Estamos todos reféns de uma performance coletiva de ocupação, presos por um acordo tácito de fingir que aquilo é necessário. Ninguém dá o primeiro passo pra desmontar porque o primeiro a sair da reunião parece o que não se importa.
XVI. tem lanche nos velórios?
Em algum momento, no meio da dor, alguém vai chegar com café e bolachas, e as pessoas vão comer. Com fome de verdade, depois da pernoita a velar. Talvez estranhas por terem fome num lugar daqueles, como se o corpo não tivesse o direito de continuar precisando das coisas só porque alguém morreu.
O corpo continua. Essa é a indecência e a salvação da vida, não parar por respeito. Você está no enterro do seu avô e seu estômago ronca. Você chora e ao mesmo tempo repara que precisa fazer xixi. A morte é solene, mas a gente que assiste a ela é cheia de necessidades pequenas, ridículas, persistentes, e tem algo profundamente humano em ter fome ao lado de um caixão.
A vida insiste nos intervalos de morte. Naquelas coisas todas, muitas triviais, e está tudo certo. O morto não come mais. E talvez a melhor homenagem que a gente preste aos mortos seja exatamente essa: continuar com fome, continuar precisando e, desajeitadamente, com a boca cheia, vivo.
