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terceira e última tentativa de crônicas

terceira e última tentativa de crônicas

Nove, e as últimas. O ciclo fecha onde devia: no intervalo. *Sem moral, como combinado desde o começo.*

Alexandre Barros27 junho 202615 min de leituraAtualizado em 27 jun 2026

XVII. sobre o tempo

Num antigo trabalho havia um relógio que vivia de adiantar, todo mundo sabia. Ninguém consertava porque já se corrigia de cabeça: se marca meio-dia, é onze e meia, e vivia-se nesse acordo de descontar o tempo errado de um relógio que ninguém troca.

O que me ocorre é fazermos isso com a vida toda. Acha que tem uma margem, um adiantamento, um tempo a mais guardado em algum lugar que dá pra descontar depois. "Depois eu ligo." "Depois eu visito." "Ano que vem a gente resolve isso direito." Como se houvesse um relógio adiantado também no fim, e bastasse subtrair pra ganhar mais um pouco.

Não bastava, o tempo só anda numa direção e não negocia atraso. Ele não está nem aí pra sua margem imaginada. O relógio daquele um dia vai parar: não vai mais adiantar nem atrasar, vai só parar, e aí ninguém vai precisar descontar nada, porque não vai sobrar tempo de onde tirar.

Notamos o relógio quando para. Antes disso, é só barulho de fundo marcando hora que ninguém confere.


XVIII. ma

Os japoneses têm uma palavra que a nossa língua não tem direito. Ma 間 . O caractere é uma porta com o sol no meio; a luz que entra pela fresta, o vão entre duas folhas de madeira. Não é o vazio de quem não tem nada, é o intervalo. O espaço entre as coisas que faz as coisas existirem.

A música não é a nota, é a distância entre uma nota e a outra. Encoste todas e vira ruído. O quarto não é o móvel, é o chão livre que sobra pra você atravessar. A conversa não é a fala, é a pausa antes dela, o silêncio que diz que o outro está pensando no que você disse em vez de já esperando a vez de responder.

O som que para, a cadeira que esvazia, o formato exato do que falta recortado no ar. E é isso também. Mas o ma é a outra metade que eu não tinha visto: nem todo intervalo é falta. Alguns são onde a vida acontece. O tempo desperdiçado com um amigo é ma. A terça-feira comum é ma. A fila do banco onde a revelação chega e some é ma.

Tentar preencher o intervalo é achar que o vão é defeito, que precisa ocupar cada pedaço com alguma coisa útil… mas tira a porta e fica só parede; tira o sol da fresta e fica só madeira; o sentido nunca esteve nas tábuas. Estava no espaço entre elas, por onde a luz sempre soube passar.


XIX. o primeiro a sair

A hipocrisia que sustenta a convivência não é a dos grandes vilões, é a miúda, a de manutenção. Você pergunta "tudo bem?" sabendo que não quer a resposta verdadeira, e o outro responde "tudo" sabendo que você não quer. Os dois sabem. Os dois seguem. Existe um acordo tácito, civilizatório, de que ninguém vai puxar o fio, porque o primeiro a puxar derruba a coisa inteira e fica com a cara de quem estragou a festa.

A polidez é o lubrificante que evita que a gente se machuque no atrito constante de existir perto de outros. O problema não é a convenção existir, é esquecer que é convenção e achar que é a regra. Passar a vida tão bem treinado no "tudo bem" que um dia você não sabe mais responder a pergunta de verdade, nem pra si mesmo.

Ninguém dá o primeiro passo pra desmontar, e eu quase nunca dou. Mas de vez em quando, com uma ou outra pessoa, o "tudo bem" cede e alguém responde de verdade. Ali também tem um intervalo — e esse, justamente porque é raro, vale atravessar. Dura um segundo, e por um segundo a parede vira porta.


XX. as muletas

Mesmo quem tirou Deus da conta não para de acreditar. Troca o objeto, só isso, e acredita no mérito: que o esforço, no fim, paga, apesar de já ter visto esforço não pagar mil vezes. Acredita no amanhã, que vai dar tempo, que as coisas se ajeitam, que o relógio adianta. Acredita na própria narrativa, no trajeto que conta de si, onde os erros foram aprendizados e as escolhas fizeram sentido, quando metade foi omissão e a outra metade, sorte.

Crença não é professar, mas agir sem perceber que está apostando. O sujeito mais cético do mundo levanta de manhã apostando que o dia vale a pena, e chego a conclusão de que não dá pra viver sem apoiar o peso em algo que não se prova.

Eu não acredito em muita coisa. Mas acredito que vale a pena terminar de escrever isto, e olha, não tenho prova nenhuma. Só a muleta, que me leva até o fim da frase.


XXI. a melancolia

Tem um quadro chamado Melancolia, com um homem sentado de lado na praia enquanto, lá no fundo, outras pessoas seguem a vida deles num cais. Ele não está chorando… Ele só está ali, virado pra dentro, ensimesmado, enquanto o mundo continua claro e distante às costas dele. Botei na capa uma vez e nunca falei por quê.

A tristeza tem objeto: morreu alguém, acabou alguma coisa, dói com endereço. A melancolia não tem endereço. É o luto de coisas que nem chegaram a acontecer; a vida que não foi vivida nos corredores que não couberam; o amigo que a gente não virou; a versão da pessoa que ficou pra trás em cada cidade. Você sente falta de um futuro que nunca existiu, e não tem velório pra isso, não tem cadeira vazia, porque nunca houve ninguém sentado nela.

É um sentimento sem utilidade nenhuma e por isso mesmo honesto. Não te move a fazer nada, não tem lição. Os hábitos que morreram sem cerimônia se acumulam ali, no quadro, junto com as conversas adiadas. O homem na praia é a gente fazendo o balanço do não-vivido enquanto, no cais, a vida segue clara e distante — e a clareza, vista de longe, não é castigo: é o lembrete de que ainda há cais, e de que dá pra levantar e ir.

Encarar de frente o tamanho do que não coube é, por mais estranho que pareça, uma das poucas formas de gostar do que coube. Quem mede a falta é porque ainda sabe, de cor, o valor da coisa cheia.


XXII. a esperança, mesmo assim

Depois de tudo isto, alguém poderia me acusar de não ter deixado saída. Tempo que não volta, deus que não tem, amigo que virou pó, melancolia sem cura. Justo. Mas tem uma coisa que eu não consigo arrancar de mim e é uma teimosia idiota de continuar apostando.

Não é otimismo. Otimismo é achar que vai dar certo, e eu não acho. É outra coisa, mais baixa, mais rente ao chão, uma vontade visceral de viver. É plantar uma árvore cuja sombra você não vai sentar embaixo. É a pessoa que perdeu tudo e mesmo assim, na manhã seguinte, faz café — não porque acredita que o dia será bom, mas porque faz café, porque o corpo insiste e tem essa cara-de-pau de continuar precisando das coisas.

A esperança que eu admito não promete final feliz, mas só se recusa a antecipar o fim. É miúda, sem trilha sonora, sem mirante. Mora no gesto de regar a planta numa terça sabendo que tudo seca um dia. Sabendo, e regando assim mesmo. Há uma dignidade que nenhum argumento meu consegue desmontar, e olha que eu tentei a tese inteira.

Talvez seja a última muleta, a que sobra quando você larga todas as outras. A aposta sem prova de que o intervalo entre agora e o fim ainda comporta alguma luz pela fresta. Não sei se comporta. Rego mesmo assim.


XXIII. o acervo

Há uns anos comprei dez Dostoiévski por um preço que dava vergonha de pagar. Edição de 1964, a lombada já mole, o papel daquele amarelo que não é mancha, é idade. Abri o primeiro e vi o carimbo: biblioteca de um colégio que não existe mais, do Maranhão, da mesma cidade onde estudei.

Ninguém é dono de livro. É só o atual.

O colégio achou que eram dele. Carimbou, numerou, exigiu devolução em quinze dias. Durou mais que o colégio. Antes de mim, passaram por mãos que não conheço, cada um achando que segurava algo seu. Cada um, na real, só o atual.

Agora sou eu. Vou ler e depois vou botar a data num canto. Por um tempo.

Depois a minha estante também vira caixa. Alguém decide no cansaço do inventário: esse pro sebo, esse pro lixo, esse não sei. E um Dostoiévski meu cai na mão de um estranho que abre numa página qualquer e encontra duas anotações sobrepostas, a de um adolescente idoso de um colégio morto, e a minha, em cima. Duas conversas que ele vai ler como se fossem dirigidas a ele.

Já são sessenta anos. Não devolvo, mas também não fico com eles. Ninguém fica. A gente só segura o livro um tempo, escreve na borda, e passa adiante uma conversa que começou antes e continua depois — sempre com o atual achando que é o dono.


XXIV. o fim

Então é assim que termina, e termina como começou: num barulho de fundo que para.

Vai ter um último de tudo, e o que pega é que quase nunca a gente sabe qual foi. A última vez que você carregou seu filho no colo antes de ele ficar pesado demais. A última partida com o amigo antes de o tabuleiro desmontar sozinho. A última conversa de verdade com alguém antes do "bora marcar" virar pó. Passou batido, no meio de uma terça comum, sem você reparar que estava se despedindo. Os fins importantes não avisam. Chegam fantasiados de mais um dia igual.

E um dia o último é o seu. O corpo para, o som cessa, e os outros seguem — e que sigam, está tudo certo: a vida volta a ocupar o intervalo, como deve. Sobra a cadeira no contorno exato da sua falta. Sobra alguém com café e bolacha sentindo fome num lugar onde se envergonha de ter. E sobra, por um tempo, o seu barulho de fundo na memória dos que ficaram — aquele som que ninguém sabia que ouvia, até parar.

Não prometo lugar melhor — disso eu não sei nada e não vou inventar. Sei que resta a lembrança, enquanto durar, e que isso, embora pareça pouco, faz um barulho que dura mais que o corpo. Mas a coisa que eu aprendi no caminho destas três tentativas é o ma. O fim não é o silêncio depois da última nota. O fim é o intervalo que faz tudo que veio antes ter sido música. Sem o silêncio no final, não havia canção nenhuma — só ruído sem forma, sem começo nem fim, impossível de escutar.

A morte é a pausa que dá sentido à frase. Dura porque acaba. E só acaba o que, em algum momento, teve a sorte absurda de começar.


XXV. o que fica

Perguntei no começo o que desaparece primeiro quando alguém morre, e respondi: o barulho. O jeito de tossir, o arrastar do chinelo. Estava certo pela metade.

Some o som, sim. Mas fica o vão que ele ocupava. O lugar na mesa que ninguém senta. A piada que só ela entendia e que você ainda começa a contar antes de lembrar que não tem mais pra quem. O caminho que seus passos faziam até a casa de alguém que não está mais lá, e que as pernas ainda querem fazer no automático.

Isso é o ma da pessoa. O intervalo no formato dela, que continua ali depois que ela vai. Não é a foto, não é o vídeo, não é a imagem que dura. É o espaço — e o espaço, diferente do barulho, não para. Fica aberto feito porta sem folha, e de vez em quando, num horário improvável, entra um sol por ele.

Talvez seja só isso que deixamos. Não um legado, não uma obra. Um vão no formato exato de quem a gente foi, na vida de algumas poucas pessoas, por onde de vez em quando ainda passa uma luz... é o bastante.


Três tentativas, vinte e cinco pedaços, a quantidade de anos que eu faço hoje, e nenhuma moral. Se algum deles te fez parar por um segundo, então a porta serviu pra alguma coisa: deixou passar a luz.

Escrito por

Alexandre Barros

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